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Ousadia com... 11 meses.
Ousadia com... 11 meses.

OUSADIA COM... 11 MESES

 

Chegou o dia... e fui apresentada ao “cercadinho”.  Parecia uma caixa de madeira com rodinhas.  Minha querida mãe providenciou um acolchoado fofinho e algumas almofadas, para que eu, sua linda filha, ficasse confortável quando a agitação me deixasse cansada.  Adorei a novidade, e dentro do meu cercadinho, gritando de felicidade, fui “trabalhar” com meu pai, pela primeira vez. 

Meu pai falava sem parar, dizendo que ia me levar para conhecer a estrebaria, onde ficavam os animais e mais adiante o depósito de ferramentas e outras coisas que se usava para trabalhar.  Linda e suave voz a do meu pai, e eu absorvia o que ele falava.  Ele, com certeza, não se dava conta de que eu era um bebê. Pegou-me em seus braços e me colocou em cima de um cavalo cor da terra, e continuava falando... explicando para a garotinha, que animal era aquele, tão grande e tão forte.  Inutilmente eu tentava abraçar o pescoço do cavalo, com meus braços pequenos. 

Quando encerrou o meu turno de “trabalho” e fui levada para dentro de casa, abri o maior berreiro.  Queria trabalhar mais... e gritava sem parar e o meu pai dizia que precisava ir para a plantação e lá eu não poderia ir.  Minha mãe apareceu e como sempre, as mães resolvem tudo, tomou-me em seus braços e eu senti o aroma do leitinho doce.  Durante alguns minutos, eu mamava, largava o seio e então chorava, para logo voltar a mamar e repetir a choradeira até acabar dormindo.

E assim, durante dias e dias eu ia com meu pai, dentro do cercadinho, para a estrebaria ou o depósito ou ver os animais pastando no campo.  E às vezes, apareciam outros homens para falar com ele.  Ficava na expectativa, porque quase sempre, quando eles vinham, era para levar meu pai para a tal plantação e eu, precisava voltar  para a tranquilidade da minha casa, onde nada acontecia. 

E logo eu queria mais... eu precisava pegar nos animais e nas plantas e naquelas flores que encontrava pelo caminho e num lugar chamado horta, onde tinha muita coisa gostosa.  Com 11 meses, grandes acontecimentos marcaram a minha vida.  Eu ainda não andava sozinha, precisava me segurar nos móveis, nas paredes ou nas mãos de um adulto.  Era exímia engatinhadora, mas ainda não sabia o que era correr.  E como sempre, aprontei... fazendo meu pai suar muito e minha mãe gritar furiosa com ele. 

Um belo dia, eu estava sentada no meu cercadinho, quando um homem entrou para falar com meu pai.  Eu já sabia que logo deveria voltar para dentro de casa.  E mais outro homem chegou para conversar.  Eu queria sair dali, queria fugir e consegui um apoio para o meu pé e pulei para fora.  Doeu o meu braço quando caí, mas eu não chorei e bem quietinha  levantei e andei para fora dali.

Meu pai continuava com aqueles homens falando da tal da plantação, e eu, já na rua sentia o vento acariciando meu rosto e continuei andando até que encontrei um lago (na verdade, eram poças d’água.  Havia chovido na noite anterior.), fui lá brincar na água e na lama.  E os meus gritinhos de alegria atraíram minhas irmãs, que estavam voltando da escola... e acabaram com a minha festa.  Chamaram minha mãe, que  saiu de casa gritando furiosa com o meu pai, chamando-o de irresponsável.    Nessa altura eu já estava caminhando para longe dali, sabia que precisava aproveitar a minha liberdade e não percebi que estava andando.

Não foi nada fácil para meus pais e a minha carreira de fugitiva não parou por aí... A magia da infância numa terra livre e numa época pacífica.

 

Nell Morato

08/10/2015