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Com que Roupa?
Com que Roupa?

 

COM QUE ROUPA?

 

Uma amiga foi assediada na rua.

Já continuo a história.

Primeiro:  grande parte das minhas amigas sofreu algum tipo de assédio na rua, o que é bem triste, mas o caso dessa amiga foi mais grave.  Não que os outros casos não tenham sido graves – já peço ao leitor que, se possível, perdoe as ressalvas que farei ao longo do texto, mas o assunto pede ressalvas o tempo todo.

Segundo:  está aí um dos grandes debates do início do século, em especial entre os jovens.  O direito das mulheres de ir e vir sem serem importunadas por um idiota.  É um tema que às vezes cansa, tamanha a quantidade de textos e vídeos reverberando o assunto – embora, claro, seja importante todos lerem e refletirem sobre essa questão, e assim concluo minha segunda ressalva sem, até agora, ter dito muita coisa.  Perdão, vamos adiante.

Minha amiga, de 29 anos, voltava da universidade no início da noite, caminhando naquele braço estreito da Avenida Osvaldo Aranha entre o campus da UFRGS e a Praça Argentina, onde eu mesmo já fui assaltado há uns 10 anos.  Nunca mais andei sozinho por lá.  É escuro.  E meio vazio.  Marina, vou chamá-la assim, usava uma saia curta e uma blusa decotada.

Vamos combinar:  um cenário macabro.

É claro que ninguém tinha o direito de botar as mãos em Marina; tampouco Marina teve qualquer sombra de culpa na história.  E, por favor, mulher nenhuma poderia ser atacada em circunstância alguma, mas o que disse o pai de Marina, no dia seguinte ao episódio, me fez pensar.  As amigas dela se revoltaram.  Entenderam que o pai, contaminado por um machismo velado e inerente à sociedade, teria responsabilizado a vítima.

- Por favor, filha, cuida o jeito de se vestir – foi o que ele pediu.

Há um movimento recente pregando que, se uma garota decidir sair à rua com os seios de fora, ainda assim ninguém terá o direito de tocá-la sem permissão.  A Marcha das Vadias carrega esse princípio – e ele está correto.  De fato, a mulher pode estar nua:  o corpo é dela e quem manda é ela.

Minha dúvida é se os grupos ativistas não deveriam fazer ressalvas, como estou a fazer desde o início do texto.  Porque, concordo, uma mulher pode usar a roupa que quiser onde quiser e quando quiser – desde que saiba os eventuais riscos que corre, principalmente se for a noite em uma rua escura.  Desde que possa se defender caso precise.

Era só o que faltava, um homem ditando regras sobre a conduta das mulheres!  Não é a minha intenção.  Agora, por mais que a sociedade avance, por mais que o machismo se recolha, por mais que a justa luta do feminismo triunfe, haverá sempre um maníaco sem freios à solta.

É provável que a sociedade amadureça a ponto de os idiotas pararem com as piadinhas, os gritos covardes e os  olhares devoradores na rua.  Porque esta, sim, é uma questão cultural.  Mas o pai de Marina se referia a outra coisa, que passa ao largo do machismo:  todos, mulheres ou homens, estejam onde estiverem, precisam saber os riscos que correm.

 

Fonte:  ZeroHora/Paulo Germano (paulo.germano@zerohora.com.br) 4/10/15