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A Mulher e a Rotina do Assédio
A Mulher e a Rotina do Assédio


A MULHER E A ROTINA DO ASSÉDIO.

O assédio à figura feminina caiu na rotina. A buzina e o assobio já viraram praxe. E quem sempre tem de mudar os hábitos para evitá-los somos nós, mulheres. Estranho, não? Digo isto lembrando de uma situação, infelizmente, quase corriqueira. Caminhando em uma avenida da Capital (Porto Alegre) com roupa de ginástica, vejo ao meu lado um carro diminuindo a velocidade, quando deveria estar a, no máximo, 40km/h. O passageiro baixa o vidro, estica o pescoço e grita insultos que toda mulher já ouviu pelo menos uma vez na vida. Por mais bem-educada que eu seja (ou tente ser), não me contive e retruquei com gestos e xingamentos.

O carro parou, e por um instante minha respiração também. Pensei que os dois homens de dentro do veículo iriam me sequestrar, me raptar, estuprar, fazer qualquer coisa para revidar o que fiz. Senti culpa. A culpa era minha? Não. Mas fugi para deixar de ver o que aconteceria depois. Corri o mais rápido que eu pude por temer pela minha segurança. Entrei em um salão de beleza próximo e inventei a primeira desculpa: “Quanto custa o corte de cabelo?”. Ali, no meio de outras mulheres, encontrei um refúgio.

Em outro caso, uma amiga de infância, dentro da academia, foi assediada por um homem que mostrou seu pênis enquanto ela malhava. Ela fez ocorrência policial, mas trancou a matrícula no estabelecimento e nunca mais voltou. Quem perdeu? Ela. Aliás, a folha corrida do sujeito já apontava uma lista de vítimas de academia.

Tem ainda a história de uma colega de faculdade. Parada na escada de um ônibus para “dar um passinho à frente”, sentiu quando uma mão cheia tascou um aperto na bunda dela. Atrás, um homem de cerca de 40 anos sorria. A primeira reação foi desferir um soco no sujeito e começar um escândalo. Gritou para que motorista e cobrador não deixassem ele entrar e ameaçou chamar a polícia. Ironicamente ele dizia: “Essa menina é louca. Não fiz nada”. Com a raiva que guardava, conseguiu dar um pontapé no peito do cara, o que o fez saltar para fora do veículo. Quando o coletivo finalmente arrancou, a reação das pessoas foi de repulsa. Afinal, a louca escandalosa era ela.

Infelizmente, para fugir de assédios sexuais, nós, mulheres, temos de adotar práticas que não solucionam o problema, mas o evitam. Procurar sentar ao lado de mulheres, colocar a bolsa atrás para que ninguém ouse “chegar mais perto”, fazer cara feia ou até mesmo se passar por louca. Quem nunca? Nos últimos tempos, adotei uma “tática”, mesmo sabendo que é perigosa, facilita assaltos e não evita o assédio, mas impede que você o escute. Uso fones de ouvido com música no volume máximo. Alivia a angústia de ter nascido mulher em uma sociedade extremamente machista.

Fonte: Jornal ZH/Kyane Vives (kyane.vives@zerohora.com.br) 12/09/2015